Obesidade infantil

Cresce, no Brasil, contingente de jovens e crianças sujeitos a hipertensão, diabetes e outras doenças crônicas. É tolo culpá-los. Solução exige políticas públicas para alimentação saudável, mudanças de hábitos e cidades sem cercas.

Maria Emilia Suplicy em entrevista a Gabriel Brito

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasaude/obesidade-infantil-entre-telas-e-ultraprocessados/

Uma em cada cinco crianças e adolescentes está acima do peso no Brasil. Entre 2018 e 2021, a obesidade infantojuvenil dobrou, passando de 1,59% a 3%. Segundo especialistas, o fenômeno é complexo e passa por diversos fatores da vida contemporânea. Mudança em hábitos alimentares e da própria oferta de alimentos, diminuição da prática de atividades físicas, tempo despendido diante de telas em atividades estáticas e até segurança pública compõem o quadro.

“Hoje nos movimentamos menos, caminhamos muito menos, gastamos muito menos energia com qualquer atividade. Por outro lado, há mais consumo calórico de alimentos que não têm qualidade. O resultado no peso médio da população está tornando a situação bem assustadora para nós”, explicou Maria Emilia Suplicy, nutricionista do Hospital Pequeno Príncipe, que se dedica ao atendimento do público infantojuvenil.

Para ela, não se pode mais jogar o problema no colo das famílias e esperar soluções individuais. O Brasil já está em um momento que exige a intervenção do Estado no sentido de prover uma drástica mudança em hábitos alimentares de sua população.

“Neste sentido, tivemos uma boa notícia, a nova legislação de rotulagem de alimentos, pois para o público leigo a leitura dos rótulos dos alimentos é mais complicada do que parece. É necessário criar uma política de incentivo e mesmo ensino de leitura de rótulo para a população aprender a visualizar essas coisas”, explicou.

Maria Emília se refere à Resolução de Diretoria Colegiada – RDC nº 429 e Instrução Normativa nº 75 da Anvisa, de 2020, e que entrou em vigor em 9 de outubro. Um importante passo. Mas, por mais surpreendente que pareça, o fenômeno da obesidade infantil só pode ser realmente revertido com mudanças muito profundas nas relações sociais e econômicas.

A mais explícita delas se daria na produção e comercialização de alimentos. Dominado por um agronegócio exportador de commodities, o Brasil não produz alimentos de qualidade em quantidade suficiente para sua população. Não bastaria informar a população sobre as propriedades nutricionais – ou sua ausência – de um pacote de biscoito de chocolate. É necessário fazer o quilo da maçã mais barato que esta opção industrializada.

“E o governo precisa entender que investir agora é poupar na frente, porque uma população obesa terá um custo enorme no orçamento público de saúde no futuro. Cuidar dessa população infantil e juvenil pode permitir que chegue à idade adulta sem excesso de peso. É uma economia de futuro”, explicou Maria Emília Suplicy.

Lamentavelmente, o país segue uma tendência global – curiosamente (ou nem tanto) atrelada aos países mais industrializados, notadamente os Estados Unidos. “Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo são obesas – 650 milhões de adultos, 340 milhões de adolescentes e 39 milhões de crianças. Esse número continua aumentando. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2025, aproximadamente 167 milhões de pessoas – adultos e crianças – ficarão menos saudáveis por estarem acima do peso ou obesas”, informa o site da Organização Pan-Americana de Saúde.

“Existem consequências que só poderiam ser cobertas por políticas de governo. Mas não precisamos pensar tão adiante para entender. Temos hoje [crianças com] doenças que antigamente chamávamos ‘de adulto’, como diabetes tipo 2, possibilidades de câncer, colesterol elevado, pressão alta, dores articulares. Tudo isso no futuro vai demandar despesas de saúde, sejam públicas ou privadas, para tratamentos”.

Fique com a entrevista completa.

Como enxerga o atual contexto da obesidade infantojuvenil no Brasil? Está em aumento? 

O número de crianças e adolescentes que se encontram nessa condição quase dobrou nos últimos anos. A cada ano em que saem estudos, o Brasil tem aumento em seus números. Isso é decorrência dos hábitos de vida e de alimentação, de pouco tempo gasto em atividade física – semelhante a outros países parecidos, que têm taxas bastante altas de obesidade. Estamos alcançando o percentual de obesos dos países que mais têm pessoas – crianças, adolescentes e adultos – nesta condição. E a obesidade infantojuvenil nos assusta mais ainda.

Quais são as razões principais desse fenômeno?  

Basicamente, mudança de hábitos alimentares. Hoje em dia se consomem muitos alimentos processados, ultraprocessados, muita coisa industrializada, empacotada. Houve redução de consumo de alimentos naturais e de certos hábitos de vida, em especial atividade física. 

Hoje nos movimentamos menos, caminhamos muito menos, gastamos menos energia com qualquer atividade. Por outro lado, há mais consumo calórico de alimentos que não têm qualidade.

O resultado no peso médio da população está tornando a situação bem assustadora para nós.

Quais seriam as saídas no sentido de estancar e reverter a obesidade infantojuvenil?

Agora, não basta mais que cada um faça seu papel. Neste momento precisamos de políticas públicas e campanhas em favor de atividade física e melhorias em hábitos alimentares.

Neste sentido, tivemos uma boa notícia nesta semana, a nova legislação de rotulagem de alimentos, pois para o público leigo a leitura dos rótulos dos alimentos é mais complicada do que parece. A nova lei facilita a leitura, indica com mais clareza o quanto tem de caloria, a quantidade que configura, por exemplo, excesso de sódio em um alimento. 

Felizmente, isso vai ficar muito mais claro nas embalagens a partir de agora. Mas é necessário criar uma política de incentivo e mesmo ensino de leitura de rótulo para a população aprender a visualizar essas coisas. 

Mas esse processo todo não se relaciona também com questões culturais e econômicas que vão muito além da noção particular que cada pessoa tenha de alimentação e atividades físicas? 

Sim, por isso disse que agora chegamos a um momento de criar políticas públicas, de o governo começar a atuar junto ao tema. Porque fazendo campanha, às vezes um simples folder ou uma placa numa unidade de saúde ou um outdoor na cidade, ajuda a promover o incentivo à atividade física, a busca por atividades ao ar livre ou aquisição e consumo de alimentos mais naturais.

Deve-se incentivar alimentação mais saudável, consumo de menos produto empacotado… São políticas que têm uma grande abrangência porque com cada um fazendo um pouquinho a gente já pode melhorar. 

Vocês acham que devemos debater coisas que vão além do que o campo da nutrição pode recomendar, como por exemplo aumento da taxação de produtos ultraprocessados, diminuição da taxação e incentivo ao aumento da produção de alimentos orgânicos?

É complicado, porque se trata de um assunto muito maior. Mas é um problema real que esses produtos, produzidos em larga escala e de baixa qualidade, tenham um custo bem menor. Portanto, seria válido trabalhar com uma taxa mais elevada que encareça um pouco esse tipo de produto e, de outro lado, valorizar o pequeno produtor rural da região.

Que se estimule o consumo de frutos da época, e os faça mais baratos, o que também colocaria benefícios ao produtor rural, que poderia receber algum subsídio para vender por um valor mais baixo. Afinal, sabemos que um quilo de maçã é bem mais caro que um pacotinho de biscoitos.

No fim, inverter essas relações de preço é mais uma política pública. Porque o consumo normalmente está associado ao custo do produto que se paga. E normalmente o produto de mais qualidade tem preço mais alto.

Como o contexto brasileiro se conecta com o internacional?

Há países muito piores do que nós, mas vemos, globalmente, um aumento da obesidade, e é essa obesidade vazia. Porque realmente é alimentação de baixo custo, de baixa qualidade nutricional, que a população em geral tem mais condição de comprar.

Se a gente conseguir trabalhar com educação e fazer o povo entender que a alimentação está relacionada à saúde, à melhor qualidade de vida, a longo prazo podemos reverter o fenômeno. E o governo precisa entender que investir agora é poupar na frente, porque hoje uma população obesa vai ter um custo enorme no orçamento público de saúde no futuro. É investir agora e evitar que essa população infantil e juvenil chegue à idade adulta com excesso de peso. É uma economia de futuro.

E quais seriam as consequências não só para a economia e o sistema de saúde, mas também às pessoas que hoje são crianças e adolescentes, caso continuem a envelhecer acima do peso adequado?

Destaco um grande problema, que chamamos de “obeso desnutrido”. Porque ele tem excesso de peso, mas é desnutrido se fizermos uma análise das vitaminas em seu corpo. Muitas vezes, essa pessoa tem excesso de calorias, mas são calorias vazias, sem vitaminas e minerais.

Existem consequências que só poderiam ser cobertas por políticas de governo. Mas não precisamos pensar tão adiante para entender. Temos hoje doenças que antigamente chamávamos de “doenças de adulto”, como diabetes tipo 2, possibilidades de câncer, colesterol elevado, pressão alta, dores articulares. Tudo isso no futuro vai demandar despesas de saúde, sejam públicas ou privadas, para tratamentos.

Antigamente, nos preocupávamos com tais enfermidades em adultos, mas hoje temos crianças com todos esses sintomas, são problemas já congênitos nos EUA. Por isso falamos que a obesidade é uma síndrome, porque causa problemas em vários órgãos.

Por isso é importante termos visão de investir em campanhas de educação alimentar, entre outras, agora. Trata-se de entender que essa população já está sofrendo, já está doente e vai piorar no futuro. Precisamos trabalhar agora para conseguir reverter ou diminuir a obesidade que só vem aumentando a cada ano.

É uma coisa abrangente, não é só alimentação e saúde. Temos de pensar em investimentos até em questões como segurança, porque se antes as crianças saíam mais de casa para brincar, hoje não o fazem – já que os próprios pais e mães têm medo de deixá-las fora de casa. Segurança pública também incide nisso, pois permite que as pessoas saiam mais de casa, se exercitem e se movimentem mais, gastem menos tempo na frente de telas, outro fator preponderante aqui.

Na venda da Amil, os horrores da privatização da Saúde

Usuários relatam dificuldades em utilizar os serviços do convênio de saúde, desde que a operadora vendeu 337 mil de seus planos individuais a outras empresas. Enquanto isso, Congresso discute a desregulamentação do setor…

Texto de Gabriela Leite publicado em OUTRA SAÚDE

Já era de se esperar, mas vieram rápido demais as reclamações de usuários da Amil sobre a degradação acelerada dos serviços. Eles relatam dificuldades em agendar exames, descredenciamento de hospitais sem aviso prévio e falta de orientação da empresa. As reclamações à ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) multiplicam-se. Tudo começou em dezembro do ano passado, quando a Amil simplesmente “vendeu” 337 mil clientes de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná às empresas APS (Assistência Personalizada à Saúde) e Fiord Capital, em dezembro de 2021.

A operação é curiosa. A gigante norte-americana do ramo da Saúde UnitedHealth, dona da Amil, repassou às minúsculas APS e Fiord Capital, por R$ 3 bilhões, os planos de saúde dos usuários que supostamente geravam prejuízo à empresa. A estranheza amplia-se à medida em que se conhecem os detalhes. A Fiord Capital foi aberta um mês antes da operação, é especializada em “reestruturação financeira” e funciona em uma casa modesta num bairro da zona leste de São Paulo. A APS, diferente da Fiord, é da área da Saúde e também pertence à UnitedHealth. Até receber os usuários da Amil, tinha apenas pouco mais de 11 mil contas. Ao fazer a transação – que ainda precisa ser autorizada pela agência reguladora –, a Amil não poderia, segundo as normas, fazer alteração na rede credenciada nem mudar os valores dos planos. Não é o que vem acontecendo…

Também os próximos passos são obscuros. De início, acreditava-se que a operação fazia parte de um plano da UnitedHealth para focar nos planos empresariais, que dão mais lucros às operadoras de convênios de Saúde. Mas nas últimas semanas de janeiro, foi revelada a intenção da corporação norte-americana de sair do Brasil. Parece estar lucrando mais com a venda de planos para idosos de baixa renda nos EUA, segundo reportagem da Exame

Nesse caso, a Amil-UnitedHealth abririam mão de seus 5,7 milhões de usuários brasileiros, 15 hospitais e 53 centros ambulatoriais. A Rede D’Or, maior rede de hospitais privados do país, poderia ser a compradora. Está de olho na infraestrutura – e caso fechasse negócio, venderia novamente as carteiras de clientes para outras operadoras. Nas mãos de grandes investidores do mercado financeiro, a frio, é quase possível esquecer que o que está se negociando é a saúde de milhões. A ANS garantirá seus direitos?

As relações obscenas entre planos de saúde e o poder público são tema do primeiro artigo do novo blog de Mario Scheffer, associado da Abrasco e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, no Estadão. Enquanto o Congresso aprova um orçamento extremamente insuficiente para a Saúde em 2022, os parlamentares discutem liberar as operadoras privadas das poucas normas que as obrigam a respeitar direitos dos usuários. A proposta é liberar a venda de planos de saúde de menor cobertura e rasgar o estatuto do idoso, permitindo reajuste de mensalidades após 60 anos de idade. 

Seria o sonho para megacorporações como a UnitedHealth. “Estão em jogo o futuro do sistema de saúde no Brasil, nossa saúde e nossas vidas”, alerta um estudo organizado pelo Grupo de Estudos sobre Planos de Saúde da Faculdade de Medicina da USP e pelo Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicado em dezembro em Outra Saúde. “Mesmo após a maior crise sanitária da história, tudo indica que o parlamento brasileiro terá, em 2023, uma bancada da saúde ainda mais servil e paroquial que a atual”, aponta Scheffer.

Por que farmácias querem seus dados pessoais

Órgão do ministério da Saúde notifica grandes redes de drogarias: falta transparência no tratamento de dados sensíveis de saúde de seus usuários. O que está envolvido na troca do CPF por descontos em produtos?

Publicação original em OUTRA SAÚDE por Gabriela Leite

“Me informa seu CPF” é a frase que não se pode evitar ouvir, ao frequentar farmácias de grandes redes. Agora, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) quer entender por que, com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), conta reportagem do Globo. A secretaria percebeu falta de transparência no tratamento de informações pessoais dos clientes das drogarias das marcas Raia Drogasil, Drogarias Pacheco, Drogaria São Paulo, Pague Menos e Panvel, e deu dez dias para que prestem esclarecimento.

Não é raro que, nessas drogarias, exija-se o CPF ou um cadastro que recolhe dados pessoais para a liberação de descontos em produtos. “Quando a empresa condiciona descontos e promoções ao cadastro de clientes, ela está comprando os dados do consumidor sem avisá-lo, o que viola a LGPD”, explica a reportagem. A Senacon quer saber, também, se há compartillhamento de dados entre farmácias, planos de saúde, laboratórios e consultórios médicos.

Texto elaborado pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) explica os riscos da troca opaca e informa sobre os direitos do usuário. Os dados sobre saúde são considerados sensíveis, e por isso exige-se tratamento especial. Planos de saúde não podem, por exemplo, usar os dados de seus clientes para formular perfis de risco ou selecionar consumidores.

“Se você vai à farmácia para comprar um medicamento antidiabético como a liraglutida ou a metformina, que estão entre os mais vendidos no Brasil, essa informação indica que você ou uma pessoa próxima apresenta estado pré-diabético ou diabético e isso pode ser usado, por exemplo, para análises de risco de saúde e para identificação de outras necessidades de consumo que você possa ter”, exemplifica o Idec. O instituto também explica quais são os direitos do usuário em relação a seus dados, como requisitar a eliminação dos dados caso tenham sido armazenados sem seu consentimento.