Obesidade infantil

Cresce, no Brasil, contingente de jovens e crianças sujeitos a hipertensão, diabetes e outras doenças crônicas. É tolo culpá-los. Solução exige políticas públicas para alimentação saudável, mudanças de hábitos e cidades sem cercas.

Maria Emilia Suplicy em entrevista a Gabriel Brito

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasaude/obesidade-infantil-entre-telas-e-ultraprocessados/

Uma em cada cinco crianças e adolescentes está acima do peso no Brasil. Entre 2018 e 2021, a obesidade infantojuvenil dobrou, passando de 1,59% a 3%. Segundo especialistas, o fenômeno é complexo e passa por diversos fatores da vida contemporânea. Mudança em hábitos alimentares e da própria oferta de alimentos, diminuição da prática de atividades físicas, tempo despendido diante de telas em atividades estáticas e até segurança pública compõem o quadro.

“Hoje nos movimentamos menos, caminhamos muito menos, gastamos muito menos energia com qualquer atividade. Por outro lado, há mais consumo calórico de alimentos que não têm qualidade. O resultado no peso médio da população está tornando a situação bem assustadora para nós”, explicou Maria Emilia Suplicy, nutricionista do Hospital Pequeno Príncipe, que se dedica ao atendimento do público infantojuvenil.

Para ela, não se pode mais jogar o problema no colo das famílias e esperar soluções individuais. O Brasil já está em um momento que exige a intervenção do Estado no sentido de prover uma drástica mudança em hábitos alimentares de sua população.

“Neste sentido, tivemos uma boa notícia, a nova legislação de rotulagem de alimentos, pois para o público leigo a leitura dos rótulos dos alimentos é mais complicada do que parece. É necessário criar uma política de incentivo e mesmo ensino de leitura de rótulo para a população aprender a visualizar essas coisas”, explicou.

Maria Emília se refere à Resolução de Diretoria Colegiada – RDC nº 429 e Instrução Normativa nº 75 da Anvisa, de 2020, e que entrou em vigor em 9 de outubro. Um importante passo. Mas, por mais surpreendente que pareça, o fenômeno da obesidade infantil só pode ser realmente revertido com mudanças muito profundas nas relações sociais e econômicas.

A mais explícita delas se daria na produção e comercialização de alimentos. Dominado por um agronegócio exportador de commodities, o Brasil não produz alimentos de qualidade em quantidade suficiente para sua população. Não bastaria informar a população sobre as propriedades nutricionais – ou sua ausência – de um pacote de biscoito de chocolate. É necessário fazer o quilo da maçã mais barato que esta opção industrializada.

“E o governo precisa entender que investir agora é poupar na frente, porque uma população obesa terá um custo enorme no orçamento público de saúde no futuro. Cuidar dessa população infantil e juvenil pode permitir que chegue à idade adulta sem excesso de peso. É uma economia de futuro”, explicou Maria Emília Suplicy.

Lamentavelmente, o país segue uma tendência global – curiosamente (ou nem tanto) atrelada aos países mais industrializados, notadamente os Estados Unidos. “Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo são obesas – 650 milhões de adultos, 340 milhões de adolescentes e 39 milhões de crianças. Esse número continua aumentando. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2025, aproximadamente 167 milhões de pessoas – adultos e crianças – ficarão menos saudáveis por estarem acima do peso ou obesas”, informa o site da Organização Pan-Americana de Saúde.

“Existem consequências que só poderiam ser cobertas por políticas de governo. Mas não precisamos pensar tão adiante para entender. Temos hoje [crianças com] doenças que antigamente chamávamos ‘de adulto’, como diabetes tipo 2, possibilidades de câncer, colesterol elevado, pressão alta, dores articulares. Tudo isso no futuro vai demandar despesas de saúde, sejam públicas ou privadas, para tratamentos”.

Fique com a entrevista completa.

Como enxerga o atual contexto da obesidade infantojuvenil no Brasil? Está em aumento? 

O número de crianças e adolescentes que se encontram nessa condição quase dobrou nos últimos anos. A cada ano em que saem estudos, o Brasil tem aumento em seus números. Isso é decorrência dos hábitos de vida e de alimentação, de pouco tempo gasto em atividade física – semelhante a outros países parecidos, que têm taxas bastante altas de obesidade. Estamos alcançando o percentual de obesos dos países que mais têm pessoas – crianças, adolescentes e adultos – nesta condição. E a obesidade infantojuvenil nos assusta mais ainda.

Quais são as razões principais desse fenômeno?  

Basicamente, mudança de hábitos alimentares. Hoje em dia se consomem muitos alimentos processados, ultraprocessados, muita coisa industrializada, empacotada. Houve redução de consumo de alimentos naturais e de certos hábitos de vida, em especial atividade física. 

Hoje nos movimentamos menos, caminhamos muito menos, gastamos menos energia com qualquer atividade. Por outro lado, há mais consumo calórico de alimentos que não têm qualidade.

O resultado no peso médio da população está tornando a situação bem assustadora para nós.

Quais seriam as saídas no sentido de estancar e reverter a obesidade infantojuvenil?

Agora, não basta mais que cada um faça seu papel. Neste momento precisamos de políticas públicas e campanhas em favor de atividade física e melhorias em hábitos alimentares.

Neste sentido, tivemos uma boa notícia nesta semana, a nova legislação de rotulagem de alimentos, pois para o público leigo a leitura dos rótulos dos alimentos é mais complicada do que parece. A nova lei facilita a leitura, indica com mais clareza o quanto tem de caloria, a quantidade que configura, por exemplo, excesso de sódio em um alimento. 

Felizmente, isso vai ficar muito mais claro nas embalagens a partir de agora. Mas é necessário criar uma política de incentivo e mesmo ensino de leitura de rótulo para a população aprender a visualizar essas coisas. 

Mas esse processo todo não se relaciona também com questões culturais e econômicas que vão muito além da noção particular que cada pessoa tenha de alimentação e atividades físicas? 

Sim, por isso disse que agora chegamos a um momento de criar políticas públicas, de o governo começar a atuar junto ao tema. Porque fazendo campanha, às vezes um simples folder ou uma placa numa unidade de saúde ou um outdoor na cidade, ajuda a promover o incentivo à atividade física, a busca por atividades ao ar livre ou aquisição e consumo de alimentos mais naturais.

Deve-se incentivar alimentação mais saudável, consumo de menos produto empacotado… São políticas que têm uma grande abrangência porque com cada um fazendo um pouquinho a gente já pode melhorar. 

Vocês acham que devemos debater coisas que vão além do que o campo da nutrição pode recomendar, como por exemplo aumento da taxação de produtos ultraprocessados, diminuição da taxação e incentivo ao aumento da produção de alimentos orgânicos?

É complicado, porque se trata de um assunto muito maior. Mas é um problema real que esses produtos, produzidos em larga escala e de baixa qualidade, tenham um custo bem menor. Portanto, seria válido trabalhar com uma taxa mais elevada que encareça um pouco esse tipo de produto e, de outro lado, valorizar o pequeno produtor rural da região.

Que se estimule o consumo de frutos da época, e os faça mais baratos, o que também colocaria benefícios ao produtor rural, que poderia receber algum subsídio para vender por um valor mais baixo. Afinal, sabemos que um quilo de maçã é bem mais caro que um pacotinho de biscoitos.

No fim, inverter essas relações de preço é mais uma política pública. Porque o consumo normalmente está associado ao custo do produto que se paga. E normalmente o produto de mais qualidade tem preço mais alto.

Como o contexto brasileiro se conecta com o internacional?

Há países muito piores do que nós, mas vemos, globalmente, um aumento da obesidade, e é essa obesidade vazia. Porque realmente é alimentação de baixo custo, de baixa qualidade nutricional, que a população em geral tem mais condição de comprar.

Se a gente conseguir trabalhar com educação e fazer o povo entender que a alimentação está relacionada à saúde, à melhor qualidade de vida, a longo prazo podemos reverter o fenômeno. E o governo precisa entender que investir agora é poupar na frente, porque hoje uma população obesa vai ter um custo enorme no orçamento público de saúde no futuro. É investir agora e evitar que essa população infantil e juvenil chegue à idade adulta com excesso de peso. É uma economia de futuro.

E quais seriam as consequências não só para a economia e o sistema de saúde, mas também às pessoas que hoje são crianças e adolescentes, caso continuem a envelhecer acima do peso adequado?

Destaco um grande problema, que chamamos de “obeso desnutrido”. Porque ele tem excesso de peso, mas é desnutrido se fizermos uma análise das vitaminas em seu corpo. Muitas vezes, essa pessoa tem excesso de calorias, mas são calorias vazias, sem vitaminas e minerais.

Existem consequências que só poderiam ser cobertas por políticas de governo. Mas não precisamos pensar tão adiante para entender. Temos hoje doenças que antigamente chamávamos de “doenças de adulto”, como diabetes tipo 2, possibilidades de câncer, colesterol elevado, pressão alta, dores articulares. Tudo isso no futuro vai demandar despesas de saúde, sejam públicas ou privadas, para tratamentos.

Antigamente, nos preocupávamos com tais enfermidades em adultos, mas hoje temos crianças com todos esses sintomas, são problemas já congênitos nos EUA. Por isso falamos que a obesidade é uma síndrome, porque causa problemas em vários órgãos.

Por isso é importante termos visão de investir em campanhas de educação alimentar, entre outras, agora. Trata-se de entender que essa população já está sofrendo, já está doente e vai piorar no futuro. Precisamos trabalhar agora para conseguir reverter ou diminuir a obesidade que só vem aumentando a cada ano.

É uma coisa abrangente, não é só alimentação e saúde. Temos de pensar em investimentos até em questões como segurança, porque se antes as crianças saíam mais de casa para brincar, hoje não o fazem – já que os próprios pais e mães têm medo de deixá-las fora de casa. Segurança pública também incide nisso, pois permite que as pessoas saiam mais de casa, se exercitem e se movimentem mais, gastem menos tempo na frente de telas, outro fator preponderante aqui.

Governo Bolsonaro esconde contaminação por agrotóxicos em alimentos

Desde 2020, os brasileiros não têm como saber quanto de resíduos de agrotóxicos estão em sua comida, segundo a Repórter Brasil. Isso porque a Anvisa não realiza testes em alimentos desde 2019, quando foi publicado o último relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – isto é, com amostras de 2017 e 2018, anteriores ao governo Bolsonaro. De 2019 a 2022, o Ministério da Agricultura liberou 1.560 novos agrotóxicos para uso em atividades agrícolas ou não, com uma média anual de aprovação de 500 novos produtos; no total, 4.644 substâncias tóxicas são permitidas hoje no Brasil. Na última edição publicada do relatório, produtos como laranja, pimentão e goiaba foram os principais alimentos com o nível de agrotóxicos acima do limite.

Fonte: Outra Saúde

Clínica de Feridas: o que não pode faltar

O que não pode faltar numa Clínica de Feridas

Diante da quantidade de dispositivos – coberturas, curativos, equipamentos vários, etc. – disponíveis para o tratamento de feridas crônicas, todos os que se dedicam a esse segmento do atendimento à saúde precisam tomar decisões racionais sobre o que é efetivamente imprescindível para atender essa demanda.

É inegável que cuidar de pacientes portadores de feridas crônicas não se resume a fazer e trocar curativos.

À excessão do câncer de pele, sabemos que as feridas crônicas de dificil cicatrização representam a manifestação de uma patologia de fundo ou se cronificam em decorrência de enfermidades que interrompem a dinâmica da cicatrização.

O vídeo a seguir é um esforço de compartilhamento da experiência de longos anos e que procura responder à uma questão recorrente entre os que dedicam ao atendimento desses pacientes: O QUE NÃO PODE FALTAR NUMA CLINICA DE FERIDAS?

Inflação de remédios dispara, afeta idosos e mais pobres

Os reajustes podem chegar a 13%, antecipa o mercado financeiro. Economista prevê quadro dramático para pessoas de mais idade e renda mais baixa. Com a inflação já nas nuvens – e subindo – o governo deve favorecer as empresas farmacêuticos
Controle de produção pelas farmacêuticas globais e altos custos cambiais no Brasil devem prolongar, a partir de 1° de abril, o forte aumento dos preços dos medicamentos iniciado no ano passado. O valor da autorização para os reajustes ainda não está definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, mas o sistema financeiro está antecipando um limite próximo dos 10,06% do ano passado, podendo chegar aos 13%. É um descalabro, do ponto de vista econômico, para todos os setores sociais. Mas a economista Vivian Almeida, professora do Ibmec-RJ, não tem dúvida: os idosos, os mais pobres e os pacientes de doenças crônicas vão ser especialmente penalizados.

Leia direto na Fonte, AQUI

Na venda da Amil, os horrores da privatização da Saúde

Usuários relatam dificuldades em utilizar os serviços do convênio de saúde, desde que a operadora vendeu 337 mil de seus planos individuais a outras empresas. Enquanto isso, Congresso discute a desregulamentação do setor…

Texto de Gabriela Leite publicado em OUTRA SAÚDE

Já era de se esperar, mas vieram rápido demais as reclamações de usuários da Amil sobre a degradação acelerada dos serviços. Eles relatam dificuldades em agendar exames, descredenciamento de hospitais sem aviso prévio e falta de orientação da empresa. As reclamações à ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) multiplicam-se. Tudo começou em dezembro do ano passado, quando a Amil simplesmente “vendeu” 337 mil clientes de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná às empresas APS (Assistência Personalizada à Saúde) e Fiord Capital, em dezembro de 2021.

A operação é curiosa. A gigante norte-americana do ramo da Saúde UnitedHealth, dona da Amil, repassou às minúsculas APS e Fiord Capital, por R$ 3 bilhões, os planos de saúde dos usuários que supostamente geravam prejuízo à empresa. A estranheza amplia-se à medida em que se conhecem os detalhes. A Fiord Capital foi aberta um mês antes da operação, é especializada em “reestruturação financeira” e funciona em uma casa modesta num bairro da zona leste de São Paulo. A APS, diferente da Fiord, é da área da Saúde e também pertence à UnitedHealth. Até receber os usuários da Amil, tinha apenas pouco mais de 11 mil contas. Ao fazer a transação – que ainda precisa ser autorizada pela agência reguladora –, a Amil não poderia, segundo as normas, fazer alteração na rede credenciada nem mudar os valores dos planos. Não é o que vem acontecendo…

Também os próximos passos são obscuros. De início, acreditava-se que a operação fazia parte de um plano da UnitedHealth para focar nos planos empresariais, que dão mais lucros às operadoras de convênios de Saúde. Mas nas últimas semanas de janeiro, foi revelada a intenção da corporação norte-americana de sair do Brasil. Parece estar lucrando mais com a venda de planos para idosos de baixa renda nos EUA, segundo reportagem da Exame

Nesse caso, a Amil-UnitedHealth abririam mão de seus 5,7 milhões de usuários brasileiros, 15 hospitais e 53 centros ambulatoriais. A Rede D’Or, maior rede de hospitais privados do país, poderia ser a compradora. Está de olho na infraestrutura – e caso fechasse negócio, venderia novamente as carteiras de clientes para outras operadoras. Nas mãos de grandes investidores do mercado financeiro, a frio, é quase possível esquecer que o que está se negociando é a saúde de milhões. A ANS garantirá seus direitos?

As relações obscenas entre planos de saúde e o poder público são tema do primeiro artigo do novo blog de Mario Scheffer, associado da Abrasco e professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, no Estadão. Enquanto o Congresso aprova um orçamento extremamente insuficiente para a Saúde em 2022, os parlamentares discutem liberar as operadoras privadas das poucas normas que as obrigam a respeitar direitos dos usuários. A proposta é liberar a venda de planos de saúde de menor cobertura e rasgar o estatuto do idoso, permitindo reajuste de mensalidades após 60 anos de idade. 

Seria o sonho para megacorporações como a UnitedHealth. “Estão em jogo o futuro do sistema de saúde no Brasil, nossa saúde e nossas vidas”, alerta um estudo organizado pelo Grupo de Estudos sobre Planos de Saúde da Faculdade de Medicina da USP e pelo Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicado em dezembro em Outra Saúde. “Mesmo após a maior crise sanitária da história, tudo indica que o parlamento brasileiro terá, em 2023, uma bancada da saúde ainda mais servil e paroquial que a atual”, aponta Scheffer.

Por que farmácias querem seus dados pessoais

Órgão do ministério da Saúde notifica grandes redes de drogarias: falta transparência no tratamento de dados sensíveis de saúde de seus usuários. O que está envolvido na troca do CPF por descontos em produtos?

Publicação original em OUTRA SAÚDE por Gabriela Leite

“Me informa seu CPF” é a frase que não se pode evitar ouvir, ao frequentar farmácias de grandes redes. Agora, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) quer entender por que, com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), conta reportagem do Globo. A secretaria percebeu falta de transparência no tratamento de informações pessoais dos clientes das drogarias das marcas Raia Drogasil, Drogarias Pacheco, Drogaria São Paulo, Pague Menos e Panvel, e deu dez dias para que prestem esclarecimento.

Não é raro que, nessas drogarias, exija-se o CPF ou um cadastro que recolhe dados pessoais para a liberação de descontos em produtos. “Quando a empresa condiciona descontos e promoções ao cadastro de clientes, ela está comprando os dados do consumidor sem avisá-lo, o que viola a LGPD”, explica a reportagem. A Senacon quer saber, também, se há compartillhamento de dados entre farmácias, planos de saúde, laboratórios e consultórios médicos.

Texto elaborado pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) explica os riscos da troca opaca e informa sobre os direitos do usuário. Os dados sobre saúde são considerados sensíveis, e por isso exige-se tratamento especial. Planos de saúde não podem, por exemplo, usar os dados de seus clientes para formular perfis de risco ou selecionar consumidores.

“Se você vai à farmácia para comprar um medicamento antidiabético como a liraglutida ou a metformina, que estão entre os mais vendidos no Brasil, essa informação indica que você ou uma pessoa próxima apresenta estado pré-diabético ou diabético e isso pode ser usado, por exemplo, para análises de risco de saúde e para identificação de outras necessidades de consumo que você possa ter”, exemplifica o Idec. O instituto também explica quais são os direitos do usuário em relação a seus dados, como requisitar a eliminação dos dados caso tenham sido armazenados sem seu consentimento.

Pioderma gangrenoso ulcerativo

Diante de uma ferida crônica em membros inferiores associada a dor intensa, devemos sempre manter em nosso radar a possibilidade de estar diante de um caso de PIODERMA GANGRENOSO (PG).

Trata-se de um processo inflamatório envolvendo a pele e tecidos subjacentes, de difícil diagnóstico e, relativamente raro ou pouco diagnosticado. Na maioria, esses casos passam despercebidos e são conduzidos com outras alternativas diagnósticas, o que retarda a abordagem apropriada. Frequentemente, por suas características na perna, o PG é facilmente confundido com úlceras venosas. Portanto, muita atenção!

Muito embora as causas ainda não estejam seguramente determinadas, o pioderma gangrenoso parece estar relacionado a problemas do sistema imunitário, haja vista que pessoas acometidas por enfermidades hematológicas, tipo artrite, e certas doenças inflamatórias intestinais – especialmente Colite Ulcerativa e Doença de Crohn – estão entre as mais acometidas pelo problema.

O Pioderma Gangrenoso também pode estar associado a outras doenças de base além das referidas no parágrafo anterior, a saber: lúpus eritematoso sistêmico, leucemia, psoríase, hepatites B e C e neoplasias.

Quando devemos desconfiar?

Se o paciente refere que a ferida surgiu e aumentou muito rapidamente; se apresenta cicatrizes de episódios anteriores parecidos e que cicatrizaram com o tratamento; e se referem que as feridas são muito dolorosas, convém desde então colocar o PG como uma possibilidade.

É muito comum que tudo se inicie com um ponto ou vários pontos avermelhados sugestivos de picada de inseto. Isto rapidamente evolui para a formação de uma ou mais pequenas ulcerações que aumentam em poucos dias, são muito dolorosas e o membro acometido evolui com edema importante. Por evoluir com recidivas, a presença de cicatrizes prévias deixa uma pista para o raciocínio diagnóstico.

As lesões pode ocorrer em outras regiões do corpo mas, preferencialmente, se localizam nos membros inferiores.

Diante de uma suspeição, a primeira providência sugerida pelo Delphi Consensus é a biopsia, que revelará intenso infiltrado neutrofílico. Não é um achado patognomônico, mas trata-se de um bom indicativo.

Convém ressaltar que alguns pacientes com PG apresentam o fenômeno da patergia (fenômeno de hiper-reatividade cutânea em resposta a um trauma mínimo) que pode ser desencadeado até mesmo pela pela biopsia (como no caso das figuras abaixo) e pelos desbridamentos. Portanto, avaliar bem antes de fazer biopsia. Os casos de evolução desastrosa após procedimentos cirúrgicos torna o PG um pesadelo para os cirurgiões plásticos.

Uma curiosidade relevante no Pioderma Gangrenoso: não se trata de um processo infeccioso; a secreção purulenta de algumas lesões decorre da presença maciça de neutrófilos, sem outros sinais sistêmicos de infecção.

O tratamento

Cuidados locais de conformidade com as características das úlceras e os protocolos de controle do exsudato, edema e eventual infecção oportunista. Evitar qualquer cobertura que possa provocar trauma.

E mais: corticosteroides, imunossupressores, imunomoduladores e, quando necessário, antibióticos de amplo espectro em caso infecção concomitante, além do suporte medicamentoso para alívio da dor.

Nunca será demais a abordagem multidisciplinar com profissionais focados na doença de base, quando identificada.

Paciente do sexo masculino, 62 anos, diabético, CA de próstata em acompanhamento com urologista; ferida pós pequeno trauma sobre a tíbia, evoluindo rapidamente, com muita dor.

Observa-se a expansão indesejada da ferida a partir do local em que foi colhido o material para biopsia – fenômeno de “patergia”.


Leituras sugeridas:

  • Diagnostic Criteria of Ulcerative Pyoderma Gangrenosum – A Delphi Consensus of International Expert – 2018 – Emanual Maverakis,  MD;  Chelsea Ma,  MD;  Kanade Shinkai,  MD, PhD
  • Pioderma gangrenoso: evidências clínicas e características – Amanda Monteiro das Graças; Edilamar Silva de Alecrim; Sandra Lyon

Mel em feridas

Com certa frequência somos questionados sobre a utilização do mel de abelha no tratamento das feridas.

No livro do Dr. Guido Majno (imagem ao lado), que dedicou muitos anos de sua vida estudando os tratamentos usados na antiguidade, ele nos informa que as propriedades do mel são conhecidas há séculos e foram utilizadas para o tratamento das mais variadas enfermidades, aí incluídas as feridas crônicas. Insuportavelmente caro, o livro pode ser adquirido neste endereço digital.

Na verdade a utilização medicinal do mel tem uma história de muitos milénios. É algo realmente muito antigo.. Uma simples consulta na internet nos fornecerá dados dando conta do uso do mel para tratamento de problemas digestivos, infecções e feridas crônicas desde o ano 400 aC.

Muito embora essas propriedades medicinais do mel remontem à antiguidade, apenas mais recentemente ressurgiu o interesse pelo seu uso no tratamento das feridas.

As propriedades antimicrobianas do mel estão documentadas na literatura médica desde o século 19, entretanto o seu uso mais intensivo nas feridas conta com publicações mais recentes, a partir do início do século XX.

Ocorre que, com o advento dos antibióticos, particularmente a penicilina (Alexander Fleming em 1928), o interesse pela utilização do mel no combate às infecções diminuiu, ficando o seu uso no território dos tratamentos ditos populares, sendo frequentemente substituído pelo uso do açúcar.
Entretanto, na medida em que o uso abusivo e generalizado dos antibióticos evoluiu para o caos da resistência bacteriana que não sabemos aonde vai nos levar, ressurgiu no meio científico um renovado interesse pelo uso do mel no tratamento das feridas crônicas.
Se, por um lado, muitos trabalhos publicados mostram resultados positivos do uso do mel nas diferentes fases da cicatrização, por outro, há ainda muita confusão sobre que tipo de mel tem essa capacidade de otimizar a evolução do processo cicatricial. Dependendo da variedade da flor de onde as abelhas colhem o néctar, existem em torno de 300 tipos de mel. Imagine!

Dentre todos eles, o mel de Manuka vem despertando especial interesse nas pesquisas. Trata-se de um mel que se origina da polinização das flores de Manuka (Leptospermun), árvore nativa da Nova Zelândia e Austrália. As folhas dessa árvore são usadas pelos povos indígenas da Nova Zelândia há séculos.
Os estudos publicados referem que este mel tem ação antibacteriana diferenciada de outros tipos de mel, agindo sobre a formação dos biofilmes que deterioram a cicatrização.

Uma busca na internet com as palavras “mel, feridas, tratamento” certamente vai resultar numa infinidade de material publicado. Obviamente, a grande maioria sem o menor rigor científico que possa gerar credibilidade. Boa parte dessas publicações sequer informam qual a origem ou tipo de mel que está sendo utilizado.

Encontrei um trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sobre “os efeitos do uso tópico do mel da abelha silvestre Melipona subnitida na evolução de feridas infectadas de pele“. Trata-se de um trabalho experimental em feridas provocadas em ratos. AMelipona subnitida, é uma abelha silvestre comum no nordeste Brasileiro.

Os autores concluíram que o uso tópico de mel de Melipona subnitida em feridas infectadas da pele de ratos estimulou a resposta imunológica, reduziu a infecção e o tempo de cicatrização. Mais detalhes desta publicação podem ser encontrados AQUI. A pesquisa foi publicada em 2008 e não temos conhecimento de desdobramentos práticos sobre o tema.

Não dispomos no Brasil, exceto em sites de importação, o mel de Manuka para uso medicinal e em feridas, muito embora tenha o seu uso efetivo em vários serviços especializados em alguns países. Convém salientar que o preço torna o produto inacessível para o padrão médio de nossos pacientes. Se quiser matar a curiosidade pesquise por Manuka Honey. Por outro lado, não se trata de uma solução indispensável. Trata-se apenas de uma ferramenta a mais que ganhou espaço no tratamento de determinadas feridas.

Dr. José Amorim de Andrade


Algumas ideias de leitura:

  • Livro: The healing hand: Man and wound in the ancien world – Guido Majno
  • Properties of honey: its mode of action and clinical outcomes – Jackie Stephen Haynes, Rosie Callaghan – Wounds UK, 2011, Vol 7, Nº 1
  • Antibacterial activity of Manuka honey and ist components: An overview – AIMS Microbiol. 2018; 4(4): 655–664.Published online 2018 Nov 27

Mau odor em feridas crônicas

Regra geral, o mau odor ou mau cheiro proveniente das feridas crônicas decorre dos tecidos necrosados ou da invasão bacteriana. Trata-se de uma situação degradante para a qualidade de vida do paciente e para a sua relação familiar e social e que precisa ser abordada com muita objetividade pelos profissionais de saúde.

Precisamos estar atentos para o fato de que algumas coberturas – especialmente os hidrocolóides – podem exalar um cheiro desagradável que provém da sua interação química com o exsudato e pode gerar apreensão do paciente. Nessa perspectiva, ao usar coberturas de hidrocoloide convém alertar o paciente.

Avaliação do odor

Além de se levar em consideração a percepção do paciente e das pessoas do seu relacionamento, o odor deve ser avaliado em dois momentos: antes mesmo da retirada do curativo secundário e eventuais bandagens, e também após a retirada dos curativos, porém antes de sua higienização ou limpeza.

Não há uma escala reconhecidamente estabelecida para quantificar o mau odor de uma ferida. Entretanto há décadas muitas publicações e serviços admitem empiricamente o seguinte escalonamento:

Intensidade Característica
Muito forteodor intolerável (mesmo antes de manipular o curativo)
Moderadoo odor é percebido, porém tolerável
Mínimoodor quase imperceptível (mesmo estando próximo do paciente)
Ausenteo odor não é percebido em nenhuma circunstância
Escala empírica aceita pelos estudiosos do assunto

Devemos considerar que até o momento não temos conhecimento de nenhum dispositivo de medição dos odores, muito embora já existem tecnologias capazes de identificar os microrganismos com base no odor dos gases que produzem.

Causa do mau odor

Admite-se que esses odores indesejáveis são provenientes de duas fontes:

  • dos processos metabólicos das bactérias anaeróbicas e/ou
  • da degradação dos tecidos desvitalizados

Duas moléculas que se formam a partir da decomposição das proteínas são a CADAVERINA e a PUTRECINA. Ambas são responsáveis pelos odores emanados de determinados fluidos corporais dos organismos vivos e de cadáveres em processo de putrefação. Elas estão presentes nos tecidos desvitalizados das feridas crônicas.

Controle do mau odor

1. TRATAR A INFECÇÃO SUBJACENTE e DIMINUIR A CARGA BACTERIANA - A invasão das feridas crônicas por bactérias anaeróbicas é responsável pela maioria das situações em que o mau odor se manifesta. A presença de cepas bacterianas anaeróbicas foram evidenciadas em cerca de 70% das feridas. Em trabalho publicado em 2008 o pesquisador Scot E. Dowd revela que muitas feridas crônicas são colonizadas por bactérias anaeróbicas que habitam também o trato gastrointestinal e são produtoras de gases de forte odor.

2. DESBRIDAMENTO DOS TECIDOS DESVITALISADOS - Na primeira abordagem de ferida com intenso mau odor a eliminação instrumental dos tecidos necróticos e inviáveis é obrigatória. Desalojar e expor cavidades e lojas subcutâneas infectadas é fundamental para o combate aos odores desagradáveis de uma ferida - especialmente nos pés diabéticos. A cada troca de curativo, o desbridamento pode se fazer necessário. Chamamos a esta conduta de DESBRIDAMENTO SEQUENCIAL. A presença de tecidos desvitalizados estimula a proliferação de microrganismos e a formação do biofilme.

No controle de mal odor associado a infecção várias abordagens são sugeridas. vejamos:

  • Aplicação tópica de Metronidazol. Não dispomos desse produto no Brasil com indicação para as feridas crônicas. Nas apresentações tópicas são indicados para tricomoníase, giardíase, amebíase, rosácea, etc. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) – preconiza o uso de gel de Metronidazol a 0,8% em gaze embebida com vaselina sobre o leito das feridas tumorais, dando conta de importante redução e até eliminação do mau odor. Sabemos que o Metronidazol age fortemente sobre bactérias anaeróbicas e seu uso tópico não produz os efeitos colaterais do uso sistêmico.
  • O creme de Sulfadiazina de Prata tem sido uma alternativa publicada por alguns autores.
  • Cadexómero (grânulos de amido) com iodo (Iodosorb). Apresenta muito bom resultado no combate à infecção, porém com custo significativo.
  • Nossa prática mais frequente se dá com as cobertura de carvão ativado com prata. A possibilidade de seu uso sob terapia compressiva se adequa convenientemente às características e protocolos de nosso serviço.

Evidentemente todos os curativos antimicrobianos podem estar indicados na abordagem do problema dos odores desagradáveis exalados por algumas feridas. As coberturas que associam a capacidade de absorção com ação antibacteriana parecem ser uma escolha bastante razoável. Aí se incluem os alginatos, hidrofibras, espumas e outros mais.

Entretanto o profissional deve estar muito atendo para a eliminação obsessiva de tecidos desvitalizados. O desbridamento, em qualquer de suas modalidades, deve estar sempre no radar dos que se dedicam a esses pacientes.


  • Fromantin I, Seyer D, Watson S et al (2013) Bacterial floras and biofilms of malignant wounds associated with breast cancers. J Clin Microbiol 51(10):3368-3373
  • Survey of bacterial diversity in chronic wounds using pyrosequencing, DGGE, and full ribosome shotgun sequencing -SE Dowd, Y Sun, PR Secor, DD Rhoads, BM Wolcott, GA James; BMC microbiology 8 (1), 1-15
  • Filipiak W, Sponring A, Baur MM et al (2012) Molecular analysis of volatile metabolites released from Staphylococcus aureus and Pseudomonas aeruginosa. BMC Microbiology 12:113–29