Pioderma gangrenoso ulcerativo

Diante de uma ferida crônica em membros inferiores associada a dor intensa, devemos sempre manter em nosso radar a possibilidade de estar diante de um caso de PIODERMA GANGRENOSO (PG).

Trata-se de um processo inflamatório envolvendo a pele e tecidos subjacentes, de difícil diagnóstico e, relativamente raro ou pouco diagnosticado. Na maioria, esses casos passam despercebidos e são conduzidos com outras alternativas diagnósticas, o que retarda a abordagem apropriada. Frequentemente, por suas características na perna, o PG é facilmente confundido com úlceras venosas. Portanto, muita atenção!

Muito embora as causas ainda não estejam seguramente determinadas, o pioderma gangrenoso parece estar relacionado a problemas do sistema imunitário, haja vista que pessoas acometidas por enfermidades hematológicas, tipo artrite, e certas doenças inflamatórias intestinais – especialmente Colite Ulcerativa e Doença de Crohn – estão entre as mais acometidas pelo problema.

O Pioderma Gangrenoso também pode estar associado a outras doenças de base além das referidas no parágrafo anterior, a saber: lúpus eritematoso sistêmico, leucemia, psoríase, hepatites B e C e neoplasias.

Quando devemos desconfiar?

Se o paciente refere que a ferida surgiu e aumentou muito rapidamente; se apresenta cicatrizes de episódios anteriores parecidos e que cicatrizaram com o tratamento; e se referem que as feridas são muito dolorosas, convém desde então colocar o PG como uma possibilidade.

É muito comum que tudo se inicie com um ponto ou vários pontos avermelhados sugestivos de picada de inseto. Isto rapidamente evolui para a formação de uma ou mais pequenas ulcerações que aumentam em poucos dias, são muito dolorosas e o membro acometido evolui com edema importante. Por evoluir com recidivas, a presença de cicatrizes prévias deixa uma pista para o raciocínio diagnóstico.

As lesões pode ocorrer em outras regiões do corpo mas, preferencialmente, se localizam nos membros inferiores.

Diante de uma suspeição, a primeira providência sugerida pelo Delphi Consensus é a biopsia, que revelará intenso infiltrado neutrofílico. Não é um achado patognomônico, mas trata-se de um bom indicativo.

Convém ressaltar que alguns pacientes com PG apresentam o fenômeno da patergia (fenômeno de hiper-reatividade cutânea em resposta a um trauma mínimo) que pode ser desencadeado até mesmo pela pela biopsia (como no caso das figuras abaixo) e pelos desbridamentos. Portanto, avaliar bem antes de fazer biopsia. Os casos de evolução desastrosa após procedimentos cirúrgicos torna o PG um pesadelo para os cirurgiões plásticos.

Uma curiosidade relevante no Pioderma Gangrenoso: não se trata de um processo infeccioso; a secreção purulenta de algumas lesões decorre da presença maciça de neutrófilos, sem outros sinais sistêmicos de infecção.

O tratamento

Cuidados locais de conformidade com as características das úlceras e os protocolos de controle do exsudato, edema e eventual infecção oportunista. Evitar qualquer cobertura que possa provocar trauma.

E mais: corticosteroides, imunossupressores, imunomoduladores e, quando necessário, antibióticos de amplo espectro em caso infecção concomitante, além do suporte medicamentoso para alívio da dor.

Nunca será demais a abordagem multidisciplinar com profissionais focados na doença de base, quando identificada.

Paciente do sexo masculino, 62 anos, diabético, CA de próstata em acompanhamento com urologista; ferida pós pequeno trauma sobre a tíbia, evoluindo rapidamente, com muita dor.

Observa-se a expansão indesejada da ferida a partir do local em que foi colhido o material para biopsia – fenômeno de “patergia”.


Leituras sugeridas:

  • Diagnostic Criteria of Ulcerative Pyoderma Gangrenosum – A Delphi Consensus of International Expert – 2018 – Emanual Maverakis,  MD;  Chelsea Ma,  MD;  Kanade Shinkai,  MD, PhD
  • Pioderma gangrenoso: evidências clínicas e características – Amanda Monteiro das Graças; Edilamar Silva de Alecrim; Sandra Lyon

Mel em feridas

Com certa frequência somos questionados sobre a utilização do mel de abelha no tratamento das feridas.

No livro do Dr. Guido Majno (imagem ao lado), que dedicou muitos anos de sua vida estudando os tratamentos usados na antiguidade, ele nos informa que as propriedades do mel são conhecidas há séculos e foram utilizadas para o tratamento das mais variadas enfermidades, aí incluídas as feridas crônicas. Insuportavelmente caro, o livro pode ser adquirido neste endereço digital.

Na verdade a utilização medicinal do mel tem uma história de muitos milénios. É algo realmente muito antigo.. Uma simples consulta na internet nos fornecerá dados dando conta do uso do mel para tratamento de problemas digestivos, infecções e feridas crônicas desde o ano 400 aC.

Muito embora essas propriedades medicinais do mel remontem à antiguidade, apenas mais recentemente ressurgiu o interesse pelo seu uso no tratamento das feridas.

As propriedades antimicrobianas do mel estão documentadas na literatura médica desde o século 19, entretanto o seu uso mais intensivo nas feridas conta com publicações mais recentes, a partir do início do século XX.

Ocorre que, com o advento dos antibióticos, particularmente a penicilina (Alexander Fleming em 1928), o interesse pela utilização do mel no combate às infecções diminuiu, ficando o seu uso no território dos tratamentos ditos populares, sendo frequentemente substituído pelo uso do açúcar.
Entretanto, na medida em que o uso abusivo e generalizado dos antibióticos evoluiu para o caos da resistência bacteriana que não sabemos aonde vai nos levar, ressurgiu no meio científico um renovado interesse pelo uso do mel no tratamento das feridas crônicas.
Se, por um lado, muitos trabalhos publicados mostram resultados positivos do uso do mel nas diferentes fases da cicatrização, por outro, há ainda muita confusão sobre que tipo de mel tem essa capacidade de otimizar a evolução do processo cicatricial. Dependendo da variedade da flor de onde as abelhas colhem o néctar, existem em torno de 300 tipos de mel. Imagine!

Dentre todos eles, o mel de Manuka vem despertando especial interesse nas pesquisas. Trata-se de um mel que se origina da polinização das flores de Manuka (Leptospermun), árvore nativa da Nova Zelândia e Austrália. As folhas dessa árvore são usadas pelos povos indígenas da Nova Zelândia há séculos.
Os estudos publicados referem que este mel tem ação antibacteriana diferenciada de outros tipos de mel, agindo sobre a formação dos biofilmes que deterioram a cicatrização.

Uma busca na internet com as palavras “mel, feridas, tratamento” certamente vai resultar numa infinidade de material publicado. Obviamente, a grande maioria sem o menor rigor científico que possa gerar credibilidade. Boa parte dessas publicações sequer informam qual a origem ou tipo de mel que está sendo utilizado.

Encontrei um trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sobre “os efeitos do uso tópico do mel da abelha silvestre Melipona subnitida na evolução de feridas infectadas de pele“. Trata-se de um trabalho experimental em feridas provocadas em ratos. AMelipona subnitida, é uma abelha silvestre comum no nordeste Brasileiro.

Os autores concluíram que o uso tópico de mel de Melipona subnitida em feridas infectadas da pele de ratos estimulou a resposta imunológica, reduziu a infecção e o tempo de cicatrização. Mais detalhes desta publicação podem ser encontrados AQUI. A pesquisa foi publicada em 2008 e não temos conhecimento de desdobramentos práticos sobre o tema.

Não dispomos no Brasil, exceto em sites de importação, o mel de Manuka para uso medicinal e em feridas, muito embora tenha o seu uso efetivo em vários serviços especializados em alguns países. Convém salientar que o preço torna o produto inacessível para o padrão médio de nossos pacientes. Se quiser matar a curiosidade pesquise por Manuka Honey. Por outro lado, não se trata de uma solução indispensável. Trata-se apenas de uma ferramenta a mais que ganhou espaço no tratamento de determinadas feridas.

Dr. José Amorim de Andrade


Algumas ideias de leitura:

  • Livro: The healing hand: Man and wound in the ancien world – Guido Majno
  • Properties of honey: its mode of action and clinical outcomes – Jackie Stephen Haynes, Rosie Callaghan – Wounds UK, 2011, Vol 7, Nº 1
  • Antibacterial activity of Manuka honey and ist components: An overview – AIMS Microbiol. 2018; 4(4): 655–664.Published online 2018 Nov 27

Mau odor em feridas crônicas

Regra geral, o mau odor ou mau cheiro proveniente das feridas crônicas decorre dos tecidos necrosados ou da invasão bacteriana. Trata-se de uma situação degradante para a qualidade de vida do paciente e para a sua relação familiar e social e que precisa ser abordada com muita objetividade pelos profissionais de saúde.

Precisamos estar atentos para o fato de que algumas coberturas – especialmente os hidrocolóides – podem exalar um cheiro desagradável que provém da sua interação química com o exsudato e pode gerar apreensão do paciente. Nessa perspectiva, ao usar coberturas de hidrocoloide convém alertar o paciente.

Avaliação do odor

Além de se levar em consideração a percepção do paciente e das pessoas do seu relacionamento, o odor deve ser avaliado em dois momentos: antes mesmo da retirada do curativo secundário e eventuais bandagens, e também após a retirada dos curativos, porém antes de sua higienização ou limpeza.

Não há uma escala reconhecidamente estabelecida para quantificar o mau odor de uma ferida. Entretanto há décadas muitas publicações e serviços admitem empiricamente o seguinte escalonamento:

Intensidade Característica
Muito forteodor intolerável (mesmo antes de manipular o curativo)
Moderadoo odor é percebido, porém tolerável
Mínimoodor quase imperceptível (mesmo estando próximo do paciente)
Ausenteo odor não é percebido em nenhuma circunstância
Escala empírica aceita pelos estudiosos do assunto

Devemos considerar que até o momento não temos conhecimento de nenhum dispositivo de medição dos odores, muito embora já existem tecnologias capazes de identificar os microrganismos com base no odor dos gases que produzem.

Causa do mau odor

Admite-se que esses odores indesejáveis são provenientes de duas fontes:

  • dos processos metabólicos das bactérias anaeróbicas e/ou
  • da degradação dos tecidos desvitalizados

Duas moléculas que se formam a partir da decomposição das proteínas são a CADAVERINA e a PUTRECINA. Ambas são responsáveis pelos odores emanados de determinados fluidos corporais dos organismos vivos e de cadáveres em processo de putrefação. Elas estão presentes nos tecidos desvitalizados das feridas crônicas.

Controle do mau odor

1. TRATAR A INFECÇÃO SUBJACENTE e DIMINUIR A CARGA BACTERIANA - A invasão das feridas crônicas por bactérias anaeróbicas é responsável pela maioria das situações em que o mau odor se manifesta. A presença de cepas bacterianas anaeróbicas foram evidenciadas em cerca de 70% das feridas. Em trabalho publicado em 2008 o pesquisador Scot E. Dowd revela que muitas feridas crônicas são colonizadas por bactérias anaeróbicas que habitam também o trato gastrointestinal e são produtoras de gases de forte odor.

2. DESBRIDAMENTO DOS TECIDOS DESVITALISADOS - Na primeira abordagem de ferida com intenso mau odor a eliminação instrumental dos tecidos necróticos e inviáveis é obrigatória. Desalojar e expor cavidades e lojas subcutâneas infectadas é fundamental para o combate aos odores desagradáveis de uma ferida - especialmente nos pés diabéticos. A cada troca de curativo, o desbridamento pode se fazer necessário. Chamamos a esta conduta de DESBRIDAMENTO SEQUENCIAL. A presença de tecidos desvitalizados estimula a proliferação de microrganismos e a formação do biofilme.

No controle de mal odor associado a infecção várias abordagens são sugeridas. vejamos:

  • Aplicação tópica de Metronidazol. Não dispomos desse produto no Brasil com indicação para as feridas crônicas. Nas apresentações tópicas são indicados para tricomoníase, giardíase, amebíase, rosácea, etc. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) – preconiza o uso de gel de Metronidazol a 0,8% em gaze embebida com vaselina sobre o leito das feridas tumorais, dando conta de importante redução e até eliminação do mau odor. Sabemos que o Metronidazol age fortemente sobre bactérias anaeróbicas e seu uso tópico não produz os efeitos colaterais do uso sistêmico.
  • O creme de Sulfadiazina de Prata tem sido uma alternativa publicada por alguns autores.
  • Cadexómero (grânulos de amido) com iodo (Iodosorb). Apresenta muito bom resultado no combate à infecção, porém com custo significativo.
  • Nossa prática mais frequente se dá com as cobertura de carvão ativado com prata. A possibilidade de seu uso sob terapia compressiva se adequa convenientemente às características e protocolos de nosso serviço.

Evidentemente todos os curativos antimicrobianos podem estar indicados na abordagem do problema dos odores desagradáveis exalados por algumas feridas. As coberturas que associam a capacidade de absorção com ação antibacteriana parecem ser uma escolha bastante razoável. Aí se incluem os alginatos, hidrofibras, espumas e outros mais.

Entretanto o profissional deve estar muito atendo para a eliminação obsessiva de tecidos desvitalizados. O desbridamento, em qualquer de suas modalidades, deve estar sempre no radar dos que se dedicam a esses pacientes.


  • Fromantin I, Seyer D, Watson S et al (2013) Bacterial floras and biofilms of malignant wounds associated with breast cancers. J Clin Microbiol 51(10):3368-3373
  • Survey of bacterial diversity in chronic wounds using pyrosequencing, DGGE, and full ribosome shotgun sequencing -SE Dowd, Y Sun, PR Secor, DD Rhoads, BM Wolcott, GA James; BMC microbiology 8 (1), 1-15
  • Filipiak W, Sponring A, Baur MM et al (2012) Molecular analysis of volatile metabolites released from Staphylococcus aureus and Pseudomonas aeruginosa. BMC Microbiology 12:113–29

Iodosorb

Durante muitos anos – eu diria, décadas – usamos produtos com Iodo para limpeza, assepsia e antissepsia da pele, muito embora sua utilização em cuidados com a saúde já era praticada desde o século XIX. Até então o iodo era considerado um dos mais eficazes antissépticos.

Nos centros cirúrgicos o álcool iodado e depois o Povidine – nas versões alcoólica e degermante – faziam parte da rotina de preparo das mãos da equipe cirúrgica e do campo operatório em muitos centros hospitalares. Era um problema quando pacientes informavam alergia ao Iodo em serviços que não dispunham de outras alternativas.

Se, por um lado, os iodados foram abandonados nos centro cirúrgicos – talvez ainda encontremos o Povidine Degermante em algumas unidades hospitalares – os compostos de iodo para uso tópico vem se impondo como alternativa contra a infecção no tratamento das feridas crônicas. Concentrações apropriadas contornam a toxicidade celular dos produtos convencionais.

Numa consulta à Wikipedia aprendemos que:

    • O iodo é um elemento químico essencial. Uma das funções conhecidas do iodo é como parte integrante dos hormônios tireoidianos. A glândula tireoide fabrica os hormônios tiroxina e tri-iodotironina, que contém iodo. A deficiência de iodo conduz ao Hipotireoidismo de que resultam o bócio e mixedema.
    • Deficiência de iodo na infância pode originar o cretinismo, ocasionando um retardo mental e físico.
    • O excesso de produção de hormônios na tireoide conduz ao hipertireoidismo.
Iodo
Fonte:https://www.infoescola.com/elementos-quimicos/iodo/
Iodosorb no tratamento das feridas crônicas infectadas
Bisnaga de IODOSORBTM de 10g

Comentaremos um pouco de nossa experiência com o IODOSORB da empresa Smith&Nephew.

Informamos que não temos qualquer conflito de interesse relacionado ao produto.

O Iodosorb é uma pomada composta por microesferas de amido – quimicamente, um cadexómero – acrescida de iodo a 0,9%.

Enquanto o composto de amido atua como um absorvente que vai agir no controle do exsudato, o iodo vai sendo gradualmente liberado para o ambiente da ferida e exercendo suas atividades bactericidas e bacteriostáticas.

Só utilizamos o Iodosorb em feridas que apresentam evidências de infecção.

Nossa experiência com esse produto tem sido muito positiva.

Nunca utilizamos mais do que uma bisnaga de 10g em uma única aplicação e descontinuamos o uso tão logo desapareçam as evidências de infecção.

A dificuldade de encontrar o produto nas farmácias convencionais e o preço são as limitações mais comuns enfrentadas pelos pacientes.

Como de costume, recomendamos a leitura cuidadosa das informações fornecidas pelo fabricante AQUI.

Adaptic

Trata-se de uma cobertura primária – curativo primário – não aderente, confeccionada com o intuito de proteger o leito das feridas. Há vários outros produtos com esse mesmo propósito.

Essa cobertura procura contemplar a ideia de que, não aderindo ao leito, temos:

  • Retirada não dolorosa por ocasião das trocas
  • Facilidade na remoção minimizando traumas ao leito
  • Proteção do leito contra desbridamento não seletivo
Adaptic
Apresentação comercial do Adaptic 7,6 x 7,6 (o menor tamanho)

O ADAPTICTM se apresenta no formato de malha de acetato de celulose impregnada com uma emulsão de petrolato (que é um derivado do petróleo). A título de curiosidade, a vaselina é comercializada a partir de alguns processamentos do petrolato.

Não cabe aqui a enorme discussão em torno do uso do petrolato em cosmetologia. A temática envolvida nesta celeuma não faz sentido, nem se aplica, no que diz respeito ao seu uso no tratamento das feridas crônicas.

Esse tipo de cobertura primária, utilizada de forma apropriada, apresenta outras vantagens importantes no tratamento das feridas crônicas, entre elas:

Pode ser cortada para se adequar ao tamanho e ao formato das feridas
Facilidade de acomodação em qualquer topografia da superfície corporal
Permite a passagem do exsudato que será conduzido para o curativo absortivo secundário
Não impede a difusão de elementos químicos contidos nos curativos secundários para o leito das feridas (tais como produtos antimicrobianos)
Reduz a possibilidade de aderência do curativo secundário
Pode ser utilizado sob terapia compressiva (tipo bandagem de UNNA)
  • Imagem 1 e 2 – Aplicação de IodosorbTM após a colocação do Adaptic sobre as feridas; as malhas da cobertura permitem a “entrega” do antimicrobiano para o leito das feridas
  • Imagem 3 – Uma cobertura secundária de carvão ativado com prata (ActisorbTM) foi aplicada sobre o Adaptic em uma úlcera venosa com moderado exsudato e mau cheiro.
  • Nos dois casos acima foi aplicada bandagem compressiva de UNNA sobre essas cobrturas
  • Na figura 4 mostramos a facilidade com que essa cobertura se amolda ao formato da topografia, neste caso coto de amputação transmetatarseana

COVID-19 -tocar os objetos contagia?

Você “desinfeta” todos os produtos que você compra no supermercado? Passa álcool gel no seu celular, na direção do seu carro, no seu óculos, seu relógio ou até mesmo nas moedas e cédulas de dinheiro?

Pois bem, o jornal EL PAIS, fonte do que tratamos neste post, publica análise feita pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) dando conta de que “o risco de contágio ao tocar superfícies contaminadas pelo Covid é de 1 entre 10.000″. O subtítulo da citada matéria diz: “Os centros de controle de enfermidades minimizam o risco de contágio por tocar objetos e assinalam que normalmente basta limpá-los com sabão”.

Não é à toa que os desinfetantes em suas mais diferentes apresentações estão vendendo feito água.

Diz o artigo:

“O uso de desinfetantes é desnecessário na maioria das situações quotidianas para combater o coronavirus,…. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) analisou todas as provas científicas sobre a propagação da Covid a partir das superfícies e concluiu que a limpeza com sabão ou detergente comum é suficiente. Acima de tudo, porque o risco de contágio por tocar numa superfície contaminada é muito, muito raro. O CDC tem até a ousadia de apresentar um número: menos de uma infecção para cada 10.000 vezes que se toca num objeto com coronavírus.

Acrescentamos aqui que essa possibilidade de se contaminar ao tocar objetos se tornará quase impossível se tivermos o hábito de lavar as mãos antes de levá-las ao rosto ou à boca.

Na análise efetuada pelo CDC ficou claro que o risco de infecção pela via dos objetos é altamente improvável. E conclui: “Devido aos múltiplos fatores que afetam a transmissão ambiental, o risco de transmissão do SRA-CoV-2 por fômites é muito baixo comparado com o contato direto, a transmissão por gotículas ou por via aérea”. Lemos na Wikipédia que um fômite é qualquer objeto inanimado ou substância capaz de absorver, reter e transportar organismos contagiantes ou infecciosos, de um indivíduo a outro.

Portanto, o contato direto com outras pessoas ainda é considerado o mais perigoso, pois falar, cantar, tossir, espirrar, etc., gera gotículas de tamanhos variados que podem ser inaladas por outras pessoas.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) também observa nas suas diretrizes que esta via de transmissão é a menos provável e assinala que não foram notificados casos de infecção por fômites após milhões de doentes em todo o mundo. O CDC observa também que, tal como na transmissão inalatória, o exterior é também menos perigoso para a infecção da superfície dos objetos “devido à diluição e ao movimento do ar, bem como às condições ambientais mais difíceis, tais como a luz solar”.

Conclui a matéria:

Todas as agências e autoridades de saúde desaconselham a fumigação ou nebulização de ambientes e este documento do CDC reitera que isto não é útil nem seguro. E recomenda apenas o uso de desinfetantes especiais, além do sabonete normal, “nas situações em que houve suspeita ou confirmação de caso de COVID-19 em ambientes fechados nas últimas 24 horas”.

Portanto, acredito que a desinformação a esse respeito pode estar levando as pessoas a adotar condutas obsessivas e ao medo de tocar nos objetos. Saliento que podemos encontrar o equilíbrio apenas tendo o cuidado de higienizar as mãos antes de levá-las ao rosto caso tenhamos frequentado ambientes ou transportes públicos.

Vacina Oxford/AstraZeneca e coágulos

Em 16 de março publicamos AQUI assunto tratado na mídia especializada dando conta de problemas com a vacina da Oxford/AstraZeneca que levou à suspensão do uso dessa vacina em vários países da Europa. Apesar das justificativas apresentadas em seguida por diferentes instituições, a coisa parece ser um pouco mais séria. Vejamos a matéria abaixo que transcrevo de OUTRA SAÚDE e que deve ser acompanhada com muita atenção.


A Alemanha acaba de mudar, mais uma vez, as orientações para o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca: agora, a vacina fica restrita a maiores de 60 anos. Na segunda-feira, o Canadá tomou decisão semelhante, suspendendo o uso para menores de 55 anos. Mais uma vez, o problema são os coágulos sanguíneos.

Desde o começo dessa polêmica, especialistas têm reforçado que não há evidências sobre uma eventual relação entre essa vacina e os coágulos. Falamos bastante disso aqui e aqui. Mas dados recentes mostram que essa história pode não ser tão simples quanto parece.

É que as condições identificadas pelas autoridades em vários países europeus não são coágulos comuns. Uma matéria publicada no site da Science no fim de semana explica: o que se vê são pessoas com coágulos por todo o corpo e, ao mesmo tempo, baixa contagem de plaquetas no sangue – o que é paradoxal, porque as plaquetas são células sanguíneas que justamente ajudam a formar os coágulos. O problema é mesmo bastante raro, mas, sendo tão específico, não daria para apenas compará-lo com a incidência de outros problemas relacionados a coágulos em geral na população, como se vem fazendo.

O pesquisador alemão Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, diz que os sintomas se parecem aos de um raro efeito colateral da heparina, medicamento usado para tratar e prevenir coágulos. Esse efeito se chama trombocitopenia induzida por heparina (HIT), e a pesquisa de Greinacher, ainda não revisada por pares, sugere que possa estar acontecendo uma “síndrome de trombocitopenia imune pro trombótica induzida por vacina”. O caso não está fechado – continuamos sem saber se é a vacina que induz ao problema. Mas várias entidades médicas estão levando essas considerações a sério.

É sempre bom lembrar que aprovações emergenciais de vacinas envolvem uma avaliação dos riscos e benefícios. E, nos locais onde o vírus está mais alastrado e para as populações que correm mais risco de morrer por covid-19, o impacto do uso desse imunizante é claramente positivo. A dúvida é sobre o quanto vale a pena usá-lo em quem não está nos grupos de risco.

Em artigo publicado ontem no site The Atlantic, Hilda Bastian, especialista em análise de dados de ensaios clínicos, trata da tênue linha que separa uma comunicação eficiente sobre riscos e a disseminação de pânico total. Mas o medo do segundo efeito, defende ela, não pode excluir a necessidade de tratar as informações com transparência.

E há um ponto crucial nisso tudo: apesar de todas as incertezas, os raros coágulos são uma condição tratável. Portanto, se as autoridades de saúde mundo afora alertarem suas populações e serviços de saúde para os sintomas, a recuperação dos pacientes é possível. Tais sintomas, segundo a EMA (agência reguladora europeia), são os seguintes: falta de ar, dor no peito, inchaço nas pernas, dor abdominal persistente, dores de cabeça fortes ou persistentes, visão turva e hematomas ou pequenas manchas na pele.

AAS (aspirina) e Covid-19

A matéria que divulgo a seguir, em tradução livre, parece mostrar que os indivíduos que já fazem uso do AAS ou aspirina em baixas doses – 81mg/dia – poderão ser beneficiados caso venham a ser acometidos pelo coronavirus da COVID-19. Quem desejar ler a matéria no original em inglês, clique neste LINK


Aspirina em baixa dose: O uso de aspirina em baixa dose no início da internação de um paciente para COVID-19 está associado a melhores resultados, sugere um estudo retrospectivo em Anestesia e Analgesia.

Os pesquisadores estudaram cerca de 400 pacientes norte-americanos admitidos com COVID-19 entre março e julho de 2020; cerca de um quarto recebeu aspirina (dose média, 81 mg) nos 7 dias antes da admissão ou nas 24 horas após a admissão. O desfecho primário – necessidade de ventilação mecânica – ocorreu em 36% dos que receberam aspirina contra 48% daqueles que não receberam aspirina. Após o ajuste multivariável, o uso de aspirina foi associado a um risco reduzido de 44% para ventilação mecânica. Também foi associado a riscos significativos e reduzidos de forma semelhante para admissão na UTI e mortalidade intra-hospitalar.

Os usuários de aspirina não apresentaram risco aumentado de sangramento importante. Os pesquisadores observam que a aspirina pode “inibir irreversivelmente a agregação plaquetária nos pulmões, o que poderia reduzir microtrombos pulmonares e subsequente lesão pulmonar”.

Fonte: NEJM – New England Journal of Medicine – March 21, 2021 –PHYSICIAN’S FIRST WATCH

COVID-19, vacinas e trombose

A mídia especializada e outros meios de comunicação publicaram que 14 países da EU (União Europeia) suspenderam temporariamente o uso da vacina Oxford/AstraZeneca no combate ao COVID-19, em decorrência de vários comunicados dando conta de episódios de tromboembolismo em indivíduos vacinados recentemente e, um desses casos, evoluindo para o óbito na Dinamarca.

“Dois italianos morreram após receber a vacina, e uma fonte não identificada disse à agência de notícias Reuters que as mortes causaram a suspensão temporária da vacina.” Isso levou a essa atitude “preventiva“ dos órgãos reguladores na Itália, ressaltando que nenhuma ligação foi estabelecida entre a vacina e “esses graves eventos adversos”.

Muito embora o número de casos relatados e devidamente publicados seja pequeno – cerca de 30 casos de trombose seguido de embolia em cinco milhões de vacinas aplicadas – a Agência Europeia de Medicamentos informa que iniciou investigações mais aprofundadas em torno do assunto. Devemos salientar que a vacina da Oxford/AstraZeneca ainda não foi liberada pela FDA para uso nos Estados Unidos.

De qualquer forma devemos estar atentos, na medida em que não temos a menor ideia da quantidade de casos “que não são ou não foram relatados”. O monitoramento do que acontece com toda uma população vacinada é sabidamente precária, mesmo nos países com sistemas de saúde pública mais eficientes. Imaginemos o que pode ocorrer nas condições deficientes com que a questão vem sendo conduzida no Brasil.

Não significa que devamos negligenciar a vacinação, mas que devemos ficar muito atentos para os menores sintomas que se manifestem após a vacinação. Entre esses sintomas, destacamos o aparecimento de inchação nas pernas, muito embora o tromboembolismo possa ocorrer sem “aviso prévio”.

Não podemos esquecer, por outro lado, que estudos sugerem que a doença do novo coronavirus já traz consigo um aumento do risco de tromboembolismo (The Lancet). É efetivamente preocupante que esse risco seja acrescido por um outro decorrente da vacina em pauta. Diante do quadro de escassez de vacinas verificada em muitos países, seria lamentável que uma delas tivesse que ser excluída. Aguardemos os desdobramentos e mantenhamos as precauções.