Vacina Oxford/AstraZeneca e coágulos

Em 16 de março publicamos AQUI assunto tratado na mídia especializada dando conta de problemas com a vacina da Oxford/AstraZeneca que levou à suspensão do uso dessa vacina em vários países da Europa. Apesar das justificativas apresentadas em seguida por diferentes instituições, a coisa parece ser um pouco mais séria. Vejamos a matéria abaixo que transcrevo de OUTRA SAÚDE e que deve ser acompanhada com muita atenção.


A Alemanha acaba de mudar, mais uma vez, as orientações para o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca: agora, a vacina fica restrita a maiores de 60 anos. Na segunda-feira, o Canadá tomou decisão semelhante, suspendendo o uso para menores de 55 anos. Mais uma vez, o problema são os coágulos sanguíneos.

Desde o começo dessa polêmica, especialistas têm reforçado que não há evidências sobre uma eventual relação entre essa vacina e os coágulos. Falamos bastante disso aqui e aqui. Mas dados recentes mostram que essa história pode não ser tão simples quanto parece.

É que as condições identificadas pelas autoridades em vários países europeus não são coágulos comuns. Uma matéria publicada no site da Science no fim de semana explica: o que se vê são pessoas com coágulos por todo o corpo e, ao mesmo tempo, baixa contagem de plaquetas no sangue – o que é paradoxal, porque as plaquetas são células sanguíneas que justamente ajudam a formar os coágulos. O problema é mesmo bastante raro, mas, sendo tão específico, não daria para apenas compará-lo com a incidência de outros problemas relacionados a coágulos em geral na população, como se vem fazendo.

O pesquisador alemão Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, diz que os sintomas se parecem aos de um raro efeito colateral da heparina, medicamento usado para tratar e prevenir coágulos. Esse efeito se chama trombocitopenia induzida por heparina (HIT), e a pesquisa de Greinacher, ainda não revisada por pares, sugere que possa estar acontecendo uma “síndrome de trombocitopenia imune pro trombótica induzida por vacina”. O caso não está fechado – continuamos sem saber se é a vacina que induz ao problema. Mas várias entidades médicas estão levando essas considerações a sério.

É sempre bom lembrar que aprovações emergenciais de vacinas envolvem uma avaliação dos riscos e benefícios. E, nos locais onde o vírus está mais alastrado e para as populações que correm mais risco de morrer por covid-19, o impacto do uso desse imunizante é claramente positivo. A dúvida é sobre o quanto vale a pena usá-lo em quem não está nos grupos de risco.

Em artigo publicado ontem no site The Atlantic, Hilda Bastian, especialista em análise de dados de ensaios clínicos, trata da tênue linha que separa uma comunicação eficiente sobre riscos e a disseminação de pânico total. Mas o medo do segundo efeito, defende ela, não pode excluir a necessidade de tratar as informações com transparência.

E há um ponto crucial nisso tudo: apesar de todas as incertezas, os raros coágulos são uma condição tratável. Portanto, se as autoridades de saúde mundo afora alertarem suas populações e serviços de saúde para os sintomas, a recuperação dos pacientes é possível. Tais sintomas, segundo a EMA (agência reguladora europeia), são os seguintes: falta de ar, dor no peito, inchaço nas pernas, dor abdominal persistente, dores de cabeça fortes ou persistentes, visão turva e hematomas ou pequenas manchas na pele.

AAS (aspirina) e Covid-19

A matéria que divulgo a seguir, em tradução livre, parece mostrar que os indivíduos que já fazem uso do AAS ou aspirina em baixas doses – 81mg/dia – poderão ser beneficiados caso venham a ser acometidos pelo coronavirus da COVID-19. Quem desejar ler a matéria no original em inglês, clique neste LINK


Aspirina em baixa dose: O uso de aspirina em baixa dose no início da internação de um paciente para COVID-19 está associado a melhores resultados, sugere um estudo retrospectivo em Anestesia e Analgesia.

Os pesquisadores estudaram cerca de 400 pacientes norte-americanos admitidos com COVID-19 entre março e julho de 2020; cerca de um quarto recebeu aspirina (dose média, 81 mg) nos 7 dias antes da admissão ou nas 24 horas após a admissão. O desfecho primário – necessidade de ventilação mecânica – ocorreu em 36% dos que receberam aspirina contra 48% daqueles que não receberam aspirina. Após o ajuste multivariável, o uso de aspirina foi associado a um risco reduzido de 44% para ventilação mecânica. Também foi associado a riscos significativos e reduzidos de forma semelhante para admissão na UTI e mortalidade intra-hospitalar.

Os usuários de aspirina não apresentaram risco aumentado de sangramento importante. Os pesquisadores observam que a aspirina pode “inibir irreversivelmente a agregação plaquetária nos pulmões, o que poderia reduzir microtrombos pulmonares e subsequente lesão pulmonar”.

Fonte: NEJM – New England Journal of Medicine – March 21, 2021 –PHYSICIAN’S FIRST WATCH

COVID-19, vacinas e trombose

A mídia especializada e outros meios de comunicação publicaram que 14 países da EU (União Europeia) suspenderam temporariamente o uso da vacina Oxford/AstraZeneca no combate ao COVID-19, em decorrência de vários comunicados dando conta de episódios de tromboembolismo em indivíduos vacinados recentemente e, um desses casos, evoluindo para o óbito na Dinamarca.

“Dois italianos morreram após receber a vacina, e uma fonte não identificada disse à agência de notícias Reuters que as mortes causaram a suspensão temporária da vacina.” Isso levou a essa atitude “preventiva“ dos órgãos reguladores na Itália, ressaltando que nenhuma ligação foi estabelecida entre a vacina e “esses graves eventos adversos”.

Muito embora o número de casos relatados e devidamente publicados seja pequeno – cerca de 30 casos de trombose seguido de embolia em cinco milhões de vacinas aplicadas – a Agência Europeia de Medicamentos informa que iniciou investigações mais aprofundadas em torno do assunto. Devemos salientar que a vacina da Oxford/AstraZeneca ainda não foi liberada pela FDA para uso nos Estados Unidos.

De qualquer forma devemos estar atentos, na medida em que não temos a menor ideia da quantidade de casos “que não são ou não foram relatados”. O monitoramento do que acontece com toda uma população vacinada é sabidamente precária, mesmo nos países com sistemas de saúde pública mais eficientes. Imaginemos o que pode ocorrer nas condições deficientes com que a questão vem sendo conduzida no Brasil.

Não significa que devamos negligenciar a vacinação, mas que devemos ficar muito atentos para os menores sintomas que se manifestem após a vacinação. Entre esses sintomas, destacamos o aparecimento de inchação nas pernas, muito embora o tromboembolismo possa ocorrer sem “aviso prévio”.

Não podemos esquecer, por outro lado, que estudos sugerem que a doença do novo coronavirus já traz consigo um aumento do risco de tromboembolismo (The Lancet). É efetivamente preocupante que esse risco seja acrescido por um outro decorrente da vacina em pauta. Diante do quadro de escassez de vacinas verificada em muitos países, seria lamentável que uma delas tivesse que ser excluída. Aguardemos os desdobramentos e mantenhamos as precauções.